Cotidiano Gordo – Uma cronica Sobre o dia a dia

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Quando acordo pela manhã e o vento bate no meu rosto me sinto como qualquer pessoa normal, e logo penso o que será normal?
Mas é quando saio de casa para trabalhar que perco esse conforto de me sentir bem com quem eu sou, tem gente esperando eu me odiar em cada esquina, tem gente me odiando em cada esquina.

Dentro do ônibus ou no metro, começam a me criticar, na fila do café começam a me criticar, olham para meu corpo e começam a falar, querem tirar o riso do meu rosto isso fica claro quando me olham com inquisição, ou quando me cutucam, acho que é para ver se meu corpo tem a mesma textura que o deles, violam meu corpo, invadem meu espaço pessoal com toques não permitidos e quando eu não grito de ódio, corro de constrangimento.
É hora do trabalho, enfim saio da fila dos colegas mal educados que desumanizam minha existência.
Leio meus emails, faço meu trabalho, na cadeira ao lado a colega me critica, pergunta se eu não quero perder peso, ficar mais bonita, disse que tinha acabado de receber uma dieta nova no grupo de emagrecimento que ela faz parte, me disse que eu iria arrumar um cara gato para me namorar assim que meu corpo ficar bonito, porque eu já tenho um rosto legal.
Então eu sorrio sem jeito e sem nenhuma resposta me viro de volta para minha mesa, termino meus a fazeres e  saio mais cedo, sempre que posso fugir daquela nuvem de hostilidades eu fujo.
Hoje vai dar tempo de passar naquela pracinha me sentar de frente pro lago e poder relaxar, mas parece que me enganei, passam três crianças me apontam e comentam, olha como essa tia é gorda, vamos correr antes que ela como a gente no lanche, diz a garota  risonha sem a menor noção do peso em suas palavras, paro para  me questionar, mas de onde ela tirou isso de gorda comer crianças?
Algum parente deve ter lhe dito, que caso ela não se comporte a bruxa gorda vai comer ela no lanche, nesse caso eu devo ser a tal bruxa, já que sou gorda…

Não é sempre que uma criança diz coisas que podem me ofender, mas sei lá são só crianças, normalmente eu não me aborreço com elas, até acho engraçado, só tenho medo de pensar no tipo de adulto que elas podem se tornar, crescer acreditando em pessoas gordas como bruxas comedoras de gente, mas não posso educar os filhos dos outros então apenas sigo imagino que pais doentes, criam filhos doentes.
Sair cedo do trabalho hoje não me ajudou a ficar mais animada, ouvi dizer que aquela loja de departamento lançou uma nova linha plus size, devo encontrar alguma coisa legal lá, me animei de novo, vou as compras.

No caminho algumas pessoas me olham torto nada de novo as vezes até dou risada de como eu as deixo desconfortáveis com a minha presença, nessas horas fico pensando que quando falo sobre isso com amigos e familiares, eles me dizem que eu sou paranoica, que se eu vejo essas coisas é porque fico procurando encrenca, dizem que se eu não me importar, nem vou notar nada que acontece ao meu redor, o que é obviamente ambíguo porque se é só paranoia minha, como é que eu devo não ligar para as pessoas que me olham torto se elas não existem… mais questionamentos sem respostas, mas deixa para lá quero pensar nas roupas em promoção.

Na porta da loja um cartaz que diz: roupas para mulheres reais.
obviamente me questiono,  não seriam todas as mulheres reais? Mas enfim, deve haver algo que faz as pessoas gordas se sentirem especiais quando são chamadas de mulheres reais, deve ser uma logica de que aquela loja acredita que gordos são seres humanos já que a maioria acha que não somos, não sei é estranho pensar sobre isso e não achar desrespeitoso com as demais mulheres, mas eu precisava era da roupa e não avaliar o cartaz.

Entro na loja, no atendimento só mulheres magras e o mais próximas do padrão possível, é estranho ver as pessoas que te julgam feias fingindo que te cham bonitas para te vender produtos, isso quando fingem, tem algumas delas que fazem questão de demostrar que você é um ser estranho entrando num lugar que ela odeia e só está trabalhando ali porque precisa de dinheiro, mas fazer o que?  Preciso pensar menos e só olhar as roupas, me perco do foco com muita facilidade…
Olho as araras muita roupa interessante, muita roupa sem bom caimento, muita estampa estranha, e ainda que algo ali me chame atenção de consumidora, percebo que não cabe em mim, segurei o vestido e olhei bem pra ele, a linha era plus size o vestido era manequim 44, imagino que deve haver algum outro no estoque que vista uma gorda já que a loja vende para gordas, chamo a vendedora com a cara menos amarrada,  e ela sorri desajeitada pra mim, mas é educada, pergunto se lá teria aquele modelo no tamanho 58, ela me olha desconfortável e responde; Não senhora nossos manequins só vai até o 50.
Sorri pra ela, estiquei minha bolsa, devolvi o vestido para e agradeci, fui embora com as bochechas queimando de ódio.

No caminho de volta pra casa, nada de novo volto ao lupin, transporte publico lotado, as pessoas me culpando por estarem todas apertadas uma por cima das outras, já estou irritada e respondo alto aos resmungos, será que vocês não pensam, aqui cabem quarenta pessoas, tem quase setenta, e a culpa dessa droga está apertada é minha por ser gorda, porque ninguém fala mal do prefeito ou do governador ou das empresas de ônibus por ter uma frota reduzida, vão a merda.
Nossa tirei metade da raiva que estava dentro de mi pelo dia de hoje, não eu não fiz isso de verdade esse grito foi só dentro da minha cabeça, imagina esse povo todo vai me xingar e me por pra descer do coletivo se eu falar algo assim, mas ao menos na minha cabeça eu posso dizer o que eu quiser.

Chego em casa e me sinto um pouco melhor, agora é preparar a cabeça porque amanhã tem tudo novamente, tenho consciência que sou uma das poucas gordas com emprego, então tento manter a calma, se eu perder esse emprego não encontro outro que me contrate e sei que só estou aqui porque fui indicada sobre o aviso só vai fazer trabalho interno, então tenho que preparar a cabeça para passar por mais um dia de tortura afinal preciso pagar as contas.
Digo para mim mesma aguente firme é só mais um dia, você pode desabafar tudo isso na terapia.

Milly Costa

 

 

 

Como realmente somos atendidas

 

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O atendimento no Brasil é considerado um dos piores do mundo, em 2016 o SEBRAE realizou um pesquisa onde foi apontado que a maioria dos micro e pequenos varejistas precisam melhorar a qualidade do atendimento ao consumidor. Estamos bem distante de sermos considerados referencia em atendimento e, a cada ano que passa, apesar de ser amplamente divulgada a falta de traquejo na hora de praticarmos “o atender bem”, parece que as empresas têm cada vez mais deixado isso em segundo plano.

Pois bem, vocês, leitoras aqui do Coletivo, devem esta se perguntando e nós com isso?! Rs. Esse atendimento inadequado tem sido observado por mim e tantas outras gordas desde que começou o boom do mercado plus size no Brasil. Vemos grandes, medias a pequenas marcas no mercado ter um comportamento desdenhoso e descarado com nós, público alvo. Por inúmeras vezes, entramos em lojas especificas para tamanhos grandes e nos deparamos com mulheres magras como vendedoras e pior; totalmente despreparadas para atender uma mulher gorda.

O tempo todo presenciamos risos, cochichos e troca de olhares com as coleguinhas, o assombro quando a blusa não passa nos nossos braços “já que é o maior tamanho da loja”, ou as observações e apontamentos em relação ao nosso corpo, ex: “Como você não tem bumbum essa calça deve servir”, “olha como seu quadril é muito grande esse short não vai caber”, “usa essa blusa aqui para disfarçar a barriga avantajada”. Gente, eu poderia passar horas aqui relatando os absurdos diários que ouvimos de pessoas despreparadas e que os corpos não se assemelham em nada com o nosso.

Falta respeito com as consumidoras, falta conhecimento, falta empatia ao sentimento que a gorda tem ao entrar em uma loja que se diz para ela, mas não encontra seu tamanho. Nenhuma gorda se identifica com a magra que vocês contratam para nos atender em lojas físicas. Um dos maiores erros de uma empresa é não estudar o mercado para entender o público alvo. Já não bastam esses tamanhos ridículos de EXGG que parece mais PP, a grade limitada e as campanhas com a ‘gorda padrão’ ainda somos submetidas ao ultraje que se tornou ir a uma loja comprar roupas.

É descabido o atendimento da vendedora que veste 38 para uma pessoa que veste 58, esta, inevitavelmente, fica dando pitaco sobre o que fica ou não bom no corpo de uma gorda. Por fim, uma dica de Marketing para as marcas Plus Size: criem identificação do público alvo com a marca de vocês, seja nas campanhas publicitarias, seja nas vendedoras que nos atendem.

ADM-Rose Oliveira

A Gorda e o mercado de trabalho

A dificuldade da mulher no mercado de trabalho é uma realidade e uma luta diária, no Brasil, então, estamos na 124º posição em desigualdade salarial, perdendo apenas para o chile que vem logo atrás, em toda América latina. Fazendo uma rápida pesquisa, é fácil constatar através de dados que essa realidade está longe de acabar. Segundo um relatório do Fórum Econômico Mundial, a igualdade de gênero no mercado de trabalho só será possível em 2095. Esse dado alarmante se torna ainda mais distante se falamos da mulher gorda.

O mercado de trabalho é cruel, preconceituoso e desumano com a mulher gorda. Não importa quantas línguas falamos, não importa quantas graduações, pós-graduações, mestrados e doutorados tenhamos, em uma seleção para qualquer vaga de emprego, ainda que seja a mais capacitada, se tiver candidatas magras a desclassificação é certa. Se você é uma mulher gorda e negra a situação é ainda pior; além da gordofobia institucionalizada há o racismo velado.

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A busca por recolocação no mercado de trabalho se torna um martírio diário Para a mulher gorda. Após inúmeras entrevistas, dinâmicas e mais entrevistas as mesmas ficam numa espera interminável para no fim receberem um contato informando que não possuem o “perfil da empresa”. Infelizmente, a imagem que a maioria das empresas têm sobre a gorda é a de desleixo, preguiça, o medo de não aguentar o tranco de horas de trabalho por conta do peso, ou que não temos ‘beleza’ para ocupar determinado cargo e representar tal empresa.

E como sabemos que o problema era o peso? É simples: Nós, em nossa maioria conversando com os concorrentes a mesma vaga. Antes da entrevista e constatamos que ninguém tinha a pós-graduação obrigatória, ninguém falava o segundo idioma solicitado e que o pré-requisito tão fundamental é que a exigência de um corpo “padrão” vai muito além de um bom currículo.

Adm-Rose Oliveira

Pega seu Preconceito Linguístico e senta – Agora vou te ensinar umas coisinhas.

0,,33408579,00Porque é tão interessante para a população desqualificar alguém baseado na maneira como esse alguém fala e escreve?
Não sei se você já se questionou isso, e na maioria dos vocês lendo esse texto, por serem inseridos na mesma sociedade que eu, acredito que não se questionou e pior, acredito que já aplicou com alguém em algum momento da sua vida esse tipo de opressão.

Preconceito linguístico, academicismo, elitismo, xenofobia.
Dos quatro itens listados, todos são motivos recorrentes de se tratar mal, alguém que não escreve ou fala de acordo com a norma que se entende como obrigatória, no momento em que se julga uma pessoa como burra, ignorante e se faz valer desse argumento para invalidar o discurso dessas pessoas, estamos cometendo opressão social sobre elas, não dando o direito de se expressar, simplesmente por acreditar que  você usuário da norma culta é superior aquela pessoa.

Acontece que em uma sociedade desigual como a nossa, todo e qualquer detalhe é utilizado como poder de dominação e, se encaixar na maioria possível de regras pré-determinadas para te socializar como individuo poderoso, é abocanhada para que você possa estar sempre acima do outro.
Então dizer a alguém que fala e ou escreve”errado” que a fala dessa pessoa é invalida, porque você sabe mais que ela, baseado apenas no fato da pessoa não falar/escrever de forma dita correta, sem avaliar absolutamente nada da vivencia e do conhecimento obtido pela mesma, é uma forma de se colocar mais poderoso que ela e então rebaixar socialmente aquela pessoa.

O discurso é sempre o mesmo:
– Vá estudar….
– Não discuto com quem não escreve certo
– Não sabe nem falar, como vou debater com você
– Burro, ignorante, vá primeiro aprender a escrever depois fala comigo
– Escrevendo desse jeito, não tem cultura nenhuma
– Quando você aprender a falar, e virar gente, a gente conversa
– Como você quer respeito se nem escrever sabe….

Eu poderia passar horas aqui escrevendo frases utilizadas para silenciar discursos super validos e reais, porque a pessoa cometeu os tais erros gramaticais.
Mais uma vez deixando claro para a sociedade que  A FUNÇÃO DA LÍNGUA É INFORMAR, se a mensagem foi passada de forma clara e com bons argumentos, esteja ela com erros de português ou não você e nem ninguém pode invalida-la para ter seu ego satisfeito.
O que é preciso ficar claro aqui, é que não importa o quão bem você escreva, o quanto de gramatica e norma culta você conheça, se você não tem argumentos validos sua escrita e fala podem estar dentro da ABNT, mas não vai valer de nada, usando uma linguagem bem cotidiana, a verdade é que saber encher chouriça não te torna inteligente, você apenas foi treinado para tal.

E ainda que você muito arrogante com seu olhar “superior” sobre os demais mortais, com suas frases cheias de palavras difíceis e textos cheios de virgula, não se tornará menos ignorante, a palavra que você usa para definir aqueles que por variados motivos, escrevem e falam de maneira considerada errada, é utilizada também para te definir quanto ser humano, de conhecimento limitado sobre os motivos que fazem uma pessoa escrever ou falar errado.

Um gama de motivos bem variados fazem com que o cérebro humano não consiga desenvolver as funções de escrita correta, são os chamados distúrbios de aprendizagem, o que não significa que uma pessoa que escreve errado não frequentou a escola, que ela não é inteligente, ou muito menos que ela não tenha capacidade cognitiva igual ou superior a sua e isso precisa ficar claro, porque não tem ninguém falando sobre isso.
Disgrafia, Disortografia, Dislexia, Déficit de Atenção, Distúrbios  Psicomotores, Audição deficiente, Níveis de Visão alterada, Depressão, Distúrbios de Ansiedade são apenas alguns dos motivos mais conhecidos para fazer com que um ser humano possa ter sua escrita e ou fala que fogem ao conceito normativo.

E no momento em que eu digo conhecidas, sei que você muito inteligente e de escrita perfeita, que sai por ai inferiorizando os demais, não faz ideia da existência de nem duas dessas causas citadas, porque a sua viseira limita seu cérebro a acreditar que um individuo só precisa frequentar a escola para ser um mestre em português.
Sua crença absurda, errada e burra de que é preciso saber a diferença entre mais e mas, para ser o dono do picadeiro, só te faz parecer mais palhaço que qualquer outro ser humano.

Por tanto além de escrever bem, leia e estude você também , isso ajuda muito na hora de apontar defeitos alheios, te dando conhecimento para não falar absurdos, quando você diz que não vai discutir com alguém, porque ele escreve errado, você na verdade está se calando porque mesmo escrevendo errado aquela pessoa tem dez vezes mais conteúdo para embasar os próprios argumentos do que você fera do português tem.

OBS: Esse texto vai estar cheio de erros gramaticais e ortográficos, dos mais absurdos aos mais simples, afinal ele foi escrito por uma Disgráfica muito orgulhosa da sua condição.

Bjo da Gorda Milly Costa